BEM-ESTAR

Cuide de seu coração, mas cuide mais ainda dos seus rins

Cuide de seu coração, mas cuide mais ainda dos seus rins
Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel - Cardiologista e Cirurgião Cardiovascular

Quando pensamos em saúde, especialmente na importância de nossos órgãos, vem à mente a ideia de que preservando o coração e o cérebro, o resto se ajusta de alguma forma. Mas não é bem assim que as coisas funcionam.

Embora o coração e o cérebro sejam essenciais para controle das funções circulatórias em nosso corpo, deveríamos ter muita precaução em relação a boa função de nossos rins. Como cardiologista, costumo dizer que tenho mais medo das alterações na função dos rins do que das possíveis instabilidades do coração.

Quem convive com pessoas portadoras de problemas cardíacos, sabe muito bem que existe uma vastidão de medicamentos e cirurgias que são aplicadas para correção dos defeitos e recuperação da capacidade funcional deste órgão. Pode-se controlar a pressão arterial, minimizar as arritmias, reduzir o colesterol presente nas artérias, trocar uma válvula, fazer “ponte de safena ou mamária”, colocar um marcapasso, corrigir um defeito estrutural em crianças; enfim, o arsenal de opções efetivamente é muito grande.

No caso dos rins, as opções são muito limitadas, visto que medicamentos e cirurgias muitas vezes mudam muito pouco o cenário de uma insuficiência renal. Quando a situação se complica e os rins param de funcionar, a solução acaba sendo a hemodiálise, um sistema artificial de filtração de sangue, que remove toxinas de nossa circulação.

Interessante mencionar que os rins são órgãos duplos, ou seja, a grande maioria das pessoas nasce com dois rins e nem por isto a capacidade deste órgão de suportar os insultos e as doenças se equipara ao coração. Sempre comento também que nosso coração aguenta muitas pancadas e ainda sim mantém uma razoável reserva; já os rins quando sucumbem, a situação literalmente fica complicada, sendo que não sabemos o que virá pela frente, se a pessoa vai ficar pouco tempo em hemodiálise, se ficará em hemodiálise definitivamente ou se precisará ser cogitado um transplante renal.

Para vocês terem ideia da dimensão do papel dos rins em nossa saúde e, ao mesmo, para que percebam o quanto os rins acabam sendo subestimados ou esquecidos, um dos principais problemas que atinge a população em geral é a hipertensão arterial. Esta condição clínica acomete inúmeras pessoas, geralmente de forma silenciosa, sem causar sintomas. Basta imaginar que muitas pessoas podem estar caminhando nas praias, fazendo atividades físicas nas academias, trabalhando em seus escritórios, mantendo níveis elevados de pressão arterial sem apresentar um mísero sintoma ou sinal de alerta.

Além disto, quando esta hipertensão arterial enfim é diagnosticada, a tendência natural das pessoas e dos próprios médicos é lembrar prioritariamente do coração, deixando os rins para um segundo plano. O problema é que existe a hipertensão arterial de causa renal, que acomete tanto pessoas mais jovens como de idade avançada. No caso das pessoas mais jovens, as artérias dos rins ficam mais “grossas”, dificultando a chegada de sangue aos rins; ou seja, quando o coração bombeia o sangue e o distribui para os rins, este sangue passa com extrema dificuldade pelas artérias renais, prejudicando a filtração e remoção das toxinas. No caso das pessoas com idade mais avançada, o que se verifica é o depósito de gordura no interior das artérias renais, fato este que também reduz a taxa de filtração do sangue. Em ambos os casos, as pessoas ficam inchadas, ocorre intoxicação progressiva, retenção de sangue no coração e pulmões e descontrole da pressão arterial. Claro que este cenário mais pessimista não costuma ser agudo, ou seja, demora certo tempo para acontecer, permitindo que uma boa abordagem médica consiga iniciar medicamentos e, se necessário, indicar sessões de hemodiálise.

Mas qual seria então o momento exato para se suspeitar que a hipertensão arterial tem origem em um problema renal? Na verdade, em todos os casos, poderíamos dizer. Claro que existirá uma escala de prioridades quanto as possibilidades diagnósticas, mas a causa renal para a hipertensão arterial deveria ser sistematicamente considerada em todas as faixas etárias.

Como forma de diagnosticar alterações específicas no fluxo renal, um dos exames mais eficazes seria a ultrassonografia abdominal com estudo de fluxo, também conhecido como ultrassonografia com “doppler” de artérias renais. Em caso deste exame apontar sinais de obstrução significativa do fluxo renal, algumas medidas não medicamentosas e outras medicamentosas devem ser realizadas.

Mudar o padrão de alimentação, dando mais importância para os alimentos saudáveis e reduzindo as extravagâncias, como excesso de gorduras e açúcares, é a estratégia principal. Os alimentos muito salgados e condimentados também devem constar nesta lista de restrições. O segundo passo será a regularização do uso de medicamentos, ou seja, conversar com um médico especialista (cardiologista, nefrologista) que possa prescrever remédios que melhorem o fluxo renal como também reduzam a propagação de placas de gorduras no interior dos vasos sanguíneos dos rins. Por fim, este médico especialista determinará também se existe indicação para um procedimento cirúrgico.

Em geral, a técnica cirúrgica mais empregada para desobstrução de artérias renais “grossas” ou entupidas consiste num procedimento minimamente invasivo ou conhecido como endovascular - dilatação da artéria renal com balão e implante de uma malha metálica (“stent”) para manutenção da artéria renal desobstruída. Esta técnica cirúrgica não exige abertura do abdome, sendo realizada por intermédio de um cateterismo - inserção de um cateter pela virilha e direcionamento do mesmo até o território das artérias renais.

No pós-operatório deste procedimento, continua sendo mandatório o uso de medicamentos para evitar formação de trombos (como aspirina) e para controlar o depósito de gorduras dentro dos vasos sanguíneos dos rins (como as estatinas). No entanto, continuam como primordiais medidas o rigoroso controle dos hábitos alimentares, a necessidade de realizar exames periódicos, o cuidado quanto ao controle do peso e a responsabilidade de saber que os rins são órgãos essenciais uma vida longeva.

Volto a insistir com a tese de que os rins deveriam ser motivo de medo e preocupação; quem não tem um bom funcionamento dos rins e depende de uma rotina semanal de hemodiálise sabe muito bem o que é isto tudo e pode testemunhar para quem ainda duvide. Num país como o Brasil, com filas gigantescas para transplante de órgãos, fica muito difícil achar que, diante de um problema renal avançado, um transplante renal compatível baterá em sua porta do dia para a noite.

Portanto, para as pessoas com hipertensão arterial de causa renal ou com problemas renais mais sérios, fica uma dica muito importante - cuide de seu coração, mas cuide mais ainda dos seus rins.


Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel 

Cardiologista e Cirurgião Cardiovascular

Professor Livre–Docente

CRM 105226

www.instagram.com/edmoagabriel/ (@edmoagabriel)

https://coracaomoderno.com.br/


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