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Ativistas denunciam 'blackface' em fantasias de carnaval

Ativistas denunciam 'blackface' em fantasias de carnaval
Uso de cabelos crespos como adereço por brancos é racismo, apontam
📸 Divulgação

"Blackface de cabelo" é uma das expressões cunhadas pela página na internet Samba Abstrato para questionar o uso de perucas ou penteados afro por pessoas brancas no carnaval. Como as fantasias de "nega maluca" e de “indígena”, que ridicularizam identidades raciais, o uso de cabelos crespos como adereço por foliões brancos também é inadequado e racista, denunciam os ativistas que administram a página e se propõem a falar sobre o tema no carnaval há quase dez anos, pelo olhar de pessoas pretas.

Com linguagem cômica e satírica, a página denuncia o racismo que faz parte do branqueamento da festa momesca. Entre os principais sintomas desse processo apontados por eles está a escolha de mulheres brancas como passistas mesmo quando elas não sabem sambar ─ ou melhor, como alfineta a Samba Abstrato, mesmo que tenham o "samba na ponta do braço". Essa escolha, em alguns casos, ainda vem acompanhada de simulacros de cabelos cacheados ou crespos.

Blackface é uma prática racista em que pessoas brancas utilizam artifícios como pintar a pele de preto, usar perucas ou outros acessórios para simularem de forma caricata características físicas de pessoas negras. O termo foi criado nos Estados Unidos, onde atores brancos usavam graxa, carvão e outras ferramentas para representarem pessoas negras no palco, de forma estereotipada e degradante. O "blackface de cabelo", portanto, seria repetir esse tipo de agressão, transformando os cabelos crespos em imitações depreciativas. 

Apesar de avanços recentes, o cabelo afro foi taxado por anos como "cabelo ruim" ou “feio”. Em entrevista à Agência Brasil, a diretoria da Samba Abstrato lembra que, por isso, mulheres negras foram humilhadas e preteridas, por exemplo, de vagas de emprego. Quando chega o carnaval, no entanto, pessoas que não se envolvem na luta antirracista ou não valorizam a estética negra decidem se fantasiar de “mulher preta”. Para a Samba Abstrato, o blackface de cabelo é uma continuidade da fantasia de “nega maluca”. 

“Durante o ano inteiro, mulheres advogam a estética branca, usam cabelo liso, extremamente alinhado, considerado ‘bonito’, ‘adequado’, representativo do que elas são – o que está tudo bem –  mas aí, quando chega o carnaval, querem se fantasiar de mulher negra? Isso é caricato”, reflete a diretoria da Samba Abstrato, em uma resposta coletiva de seus integrantes.

“Enquanto mulheres negras são despedidas do emprego, discriminadas, impedidas de trabalhar, seja pelo crespo natural ou em outro estilo, como tranças, enquanto lutamos pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética [negra] fantasia. Chega domingo de carnaval, último dia, tomam banho, voltam a alisar”. 

Negação da presença negra

Ao avaliar o embranquecimento do carnaval por meio da participação de mulheres brancas, tirando o protagonismo das passistas das comunidades, a Samba Abstrato denuncia o que o professor de jornalismo e diretor da FAAC da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Juarez Tadeu de Paula Xavier, chama de "aniquilamento social e cultural" da população negra. Ele pesquisa as origens do racismo e as consequências atuais da prática, incluindo episódios no carnaval.


Professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da FAAC/Unesp -📸 Natália Viola/Divulgação

"Existe um  aniquilamento que é físico, os dados da letalidade de jovens negros mostram isso, e existe esse apagamento dos negros dos espaços de visibilidade", afirma.

A negação da beleza e o aniquilamento da cultura negra são parte desse processo, explica. "É a mesma proposta do pós-abolição, de negar a presença negra na construção desse país. Os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação muito adversa", relembra o professor.

Apesar de o carnaval, como conhecemos hoje, ser voltado, em termos estéticos e plásticos, para a televisão, como um produto a ser comercializado, pontua Xavier, a festa tem digitais negras.

Segundo o professor de comunicação social, as escolas foram construídas e mantidas por pretos e pardos como forma de sobrevivência coletiva. Ele lembrou que o pós-escravidão se refletiu em “exclusão produtiva” dessa população, que ficou sem acesso à renda e ao trabalho, por exemplo.

Para Xavier, reverter esse processo requer uma estratégia ampla de combate ao racismo e à misoginia, da qual faz parte a campanha "Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais", do Ministério da Igualdade Racial (MIR), lançada na última segunda-feira (12), no Rio de Janeiro.

"Quando você tem uma campanha com a marca do governo federal, está em evidência uma ação política contra o racismo em espaços onde podem surgir essas manifestações", destaca.

Carnaval sem racismo

A campanha do ministério pretende divulgar, a partir de sábado (17), material educativo alertando para práticas como injúria racial e fantasias ofensivas, além de violências simbólicas e discriminação. O material será distribuído nas principais festas de carnaval no país, incluindo os municípios que aderiram ao Plano Juventude Negra Viva.

Na visão do secretário de Combate ao Racismo do MIR, Tiago Santana, o carnaval já superou fantasias estereotipadas, mas há quem insista.

“Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”, disse.

A campanha do ministério, explica, é para enfrentar as agressões diretas, as injúrias, mas sem deixar de coibir que temas e a estética negra sirvam de “peça de chacota”.


 Ministério da Igualdade Racial lança campanha ‘Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais’ - 📸 Rafael Caetano/MIR

Denuncie

Com a campanha, o ministério também pretende incentivar as vítimas a registrarem as denúncias por meio do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e da Ouvidoria do Ministério da igualdade Racial, pelo e-mail: ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. Os dois órgãos podem dar suporte e ajudar a denunciar os casos em órgãos oficiais.

Se você for vítima, faça também em um boletim de ocorrência, na delegacia de polícia mais perto, recomenda o professor da Unesp. “É necessário tipificar, processar, para que as pessoas respondam pela sua ação”, frisou.


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